Entrevista Especial – Mês da Mulher Blog Jivanildo Bina entrevista a Professora Luiza Souza
Blog Jivanildo Bina: Quem é você e como define sua trajetória pessoal e profissional?
Professora Luiza Souza: Maria Luiza é uma mulher sonhadora, que nasceu e cresceu na zona rural de Inhambupe, filha de lavradores, em uma família com muitos irmãos. Hoje sou professora das redes municipal e estadual. Sou formada em Educação Física pela Universidade do Estado da Bahia, onde, por meio do conhecimento adquirido, escrevi minha história e construí meu protagonismo feminino.
Blog Jivanildo Bina: Quais mulheres mais influenciaram sua vida e sua história?
Professora Luiza Souza: Infelizmente, os livros didáticos, assim como parte da sociedade, eram ditados por homens. Então, na minha época de escola — parte fundamental do meu processo de formação — não traziam referências femininas. Minha principal referência de mulher foi minha mãe. Ela dirigia, montava a cavalo e, embora tenha estudado apenas até a quarta série, era dotada de um conhecimento empírico que me deixava fascinada. Algumas vezes tentou me impor limites, pois eu era atraída por diversas coisas, principalmente pelas consideradas do universo masculino. Outra referência que tive, inclusive com a oportunidade de falar diretamente a ela, foi Dona Flor. Um dia estava no Banco do Brasil com meu pai quando ela chegou em uma caminhonete Fiorino — veículo que até hoje é visto como masculino — com uma presença extremamente marcante e popular. Perguntei ao meu pai quem era, e ele falou muito bem daquela mulher: viúva, empreendedora e independente. Naquele dia eu não sabia, mas hoje sei que ela representava empoderamento para mim. Depois da faculdade e com a vivência da vida, tenho uma lista enorme de mulheres que influenciam minha trajetória.
Blog Jivanildo Bina: Em que momento você percebeu a força do seu papel como mulher na sociedade?
Professora Luiza Souza: Aos 18 anos, comecei a fazer coisas que até então não conseguia, como jogar capoeira e participar de cavalgadas. Na capoeira, as mulheres não treinavam; as rodas eram restritas apenas aos homens. Depois disso, muitas outras mulheres começaram a treinar. Mas o momento que realmente me fez perceber essa força foi na educação, quando os alunos(as) reconhecem meu papel não apenas como mulher, mas como professora que quer o melhor para eles em todos os aspectos.
Blog Jivanildo Bina: Quais foram os maiores desafios que você enfrentou por ser mulher?
Professora Luiza Souza: Em 2004, fui convidada a ser candidata a vereadora. Eu tinha uma visão equivocada sobre política partidária. Aceitei o convite. Naquela época, assim como nos dias atuais, os partidos precisam de mulheres para se candidatarem, porém não querem que elas se elejam. Muitas vezes, a candidatura feminina funciona apenas como uma escada para eleger homens, porque não há investimento nas mulheres. Elas estão ali para cumprir a lei, mas a lei não garante cotas para eleger, pois a meta não é, de fato, colocar mulheres no poder. Por isso, mesmo após as eleições, como já aconteceu em nossa cidade, pode não haver nenhuma representação feminina na Câmara. Perceber isso, entre outros discursos machistas e misóginos, me fez repensar se aquele era o lugar em que eu realmente queria estar. Na época, eu não tinha a experiência que tenho hoje, mas, se insistisse em ter voz e vez, eu seria uma Marielle Franco?
Blog Jivanildo Bina: Já sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação? Como lidou com isso?
Professora Luiza Souza: Claro que sim. Sou uma mulher negra em uma sociedade patriarcal. No início, por imaturidade e insegurança, eu não respondia, muito menos reagia. Há muito tempo aprendi que, se necessário, devo responder à altura, mas também sei ser educada e questionadora.
Blog Jivanildo Bina: O que te deu forças para não desistir diante das dificuldades?
Professora Luiza Souza: Sabe aquela história de ser mulher? Sim. Em todas as dificuldades e limitações, eu me lembro: sou mulher e preciso seguir, pois muitas outras morreram para que eu estivesse aqui hoje. Tenho certeza de que, se fosse na época da Inquisição, eu também seria queimada como bruxa. Nos dias atuais, somos assassinadas pelo machismo e pelo patriarcado todos os dias. Então, eu não posso desistir.
Blog Jivanildo Bina: Qual conquista pessoal ou profissional mais te orgulha?
Professora Luiza Souza: Na vida pessoal, tenho muitas conquistas, especialmente relacionadas a valores, família e amigos que conquistei nessa jornada. Em relação às conquistas materiais, já consegui o básico. Na vida profissional, destaco ter sido aprovada em uma universidade pública e, por meio disso, adquirido conhecimento para a vida e para ser aprovada em dois concursos públicos.
Blog Jivanildo Bina: Que sonho você realizou e qual ainda deseja realizar?
Professora Luiza Souza: São tantos que, graças a Deus, já consegui realizar. O mais recente foi voltar a morar na zona rural. Não é apenas um retorno às minhas raízes, é viver em uma perspectiva muito além da qualidade de vida. Sempre tive o sonho de que meus alunos trilhassem o caminho da universidade, pois assim poderiam conquistar seu espaço profissional e pessoal. Hoje percebo que travo uma luta contra a mídia e as redes sociais, que muitas vezes alienam meus alunos.
Blog Jivanildo Bina: O que você acredita que ainda precisa mudar para que as mulheres tenham mais oportunidades?
Professora Luiza Souza: Inicialmente, respeito, seguido de equidade. Historicamente disseram que éramos costela; depois nos trataram como moeda de uso do corpo, destinadas apenas à procriação. Atualmente, podemos trabalhar fora, mas não deixamos nossos trabalhos de casa. As 24 horas de uma mãe não são as mesmas 24 horas de um pai; as 24 horas de uma mãe solo não são as mesmas de uma família com pai presente. Lutamos por igualdade, ainda não conseguimos, mas continuaremos lutando por respeito e equidade.
Blog Jivanildo Bina: Como você avalia o espaço que a mulher ocupa hoje na sociedade?
Professora Luiza Souza: Hoje, a mulher se reconstruiu. Ela obteve direitos sem perder seus deveres. Consegue ser o que quiser dentro dessa sociedade patriarcal, misógina e machista. A mulher independente e empoderada escolhe o que é melhor para si e busca ser respeitada por isso. Ela não precisa ser casada, mãe e submissa para existir. Evoluímos com o tempo.
Mas avaliar a mulher na sociedade é também avaliar os homens: eles estão evoluindo com nossa emancipação ou continuam dizendo que a mulher é o sexo frágil? Muitas vezes, quando não resolvem as feridas do próprio ego, percebemos o feminicídio. E é esse espaço atual da mulher que me preocupa.
Blog Jivanildo Bina: O que ainda precisa avançar em relação à igualdade de direitos?
Professora Luiza Souza: Além de tantas questões já mencionadas — como respeito e equidade — precisamos de igualdade de direitos na prática, não apenas no discurso. Ainda vemos mulheres exercendo as mesmas funções que homens e recebendo menos, sem valorização e, principalmente, sem o respeito devido.
Blog Jivanildo Bina: Qual o papel da mulher na transformação social da sua comunidade?
Professora Luiza Souza: Minha ancestralidade é indígena e afro-brasileira. A principal referência de mulher na comunidade foi minha mãe e minhas irmãs, envolvidas em movimentos religiosos, culturais e sociais. Com o tempo, ao pensar a comunidade como um todo, vieram inúmeras outras mulheres que me lapidaram nessa transformação.
Blog Jivanildo Bina: O que significa para você o Mês da Mulher?
Professora Luiza Souza: Percebo o mês de março como a soma do processo histórico das lutas feministas, mas ainda faltam políticas públicas que vão além dessa data.
Blog Jivanildo Bina: Se pudesse definir a mulher em uma palavra, qual seria e por quê?
Professora Luiza Souza: Força. Uma criatura que sangra e não morre; que gera um filho por nove meses e dá à luz, muitas vezes sem suporte obstétrico; que consegue cuidar de filhos, casa, marido, mãe, pai e trabalho; que se reinventa de acordo com as necessidades, analisando sua ancestralidade, vivendo o presente e planejando o amanhã.
Blog Jivanildo Bina: Que mensagem você deixaria para outras mulheres, especialmente as mais jovens?
Professora Luiza Souza: Ao assumir esse lugar, lembre-se: você não precisa ser igual a mim ou a ninguém que veio antes. Sua força reside na sua singularidade. Seja corajosa o suficiente para deixar sua própria marca, trazendo seu coração e sua mente para cada decisão. Haverá dias difíceis, mas lembre-se de que você é capaz de realizar qualquer coisa que colocar em sua mente. Não se intimide com o que ainda não sabe; encare como uma oportunidade de aprendizado.
A entrevista reforça a importância da valorização da mulher e do reconhecimento de suas lutas, conquistas e contribuições para a sociedade. O blog jivanildobina.com segue celebrando histórias que inspiram e transformam neste mês de março.
Por: jivanildobina.com
Fotos: JB.C



