Entrevista

Entrevista Especial – Mês da Mulher Blog Jivanildo Bina entrevista a Agente de Saúde Valdirene do Formoso

Blog Jivanildo Bina: Quem é você e como define sua trajetória pessoal e profissional?

Valdirene do Formoso: Sou Valdirene Silva Santos, sou mulher, negra, camponesa, sertaneja, militante social e filha de agricultores rurais. Tenho uma trajetória marcada por desafios, que me fizeram, desde adolescente, ter uma maturidade fora do contexto da idade que tinha. Tive minha autonomia logo cedo, pois, para sobreviver em décadas anteriores, era preciso resistência para enfrentar os obstáculos que apareciam na vida. Sempre tive um olhar de prioridade pelo estudo, em vista da qualificação, mas acima de tudo na busca de valorização e respeito enquanto pessoa na militância, quebrando vestígios de uma sociedade preconceituosa contra a mulher negra e camponesa. Em busca de estabilidade e sustentabilidade, no ano de 1998 enfrentei concurso do Estado para professora e, ao mesmo tempo, uma seleção pública para ACS (Agente Comunitária de Saúde), sendo aprovada. Priorizei o trabalho como ACS, que foi a oportunidade de emprego que tive e que exerço até os dias de hoje. Ser mulher é uma luta diária pelo reconhecimento e pelas capacidades. Sou qualificada no ramo da educação. Concluí o ensino médio no Magistério e depois segui para a área da saúde, qualificando-me como auxiliar e técnica de enfermagem. Sentia a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os direitos da pessoa humana, pois já atuava no movimento social juvenil. Então adentrei na qualificação em Serviço Social. Viver no meio do povo exige contextualizar as realidades vividas e adequar o conhecimento adquirido, projetando o empoderamento humano. Em meio às tempestades da vida, percorri também a qualificação na Educação do Campo, sendo da primeira turma da UFRB no estado da Bahia, licenciada em Ciências da Natureza, com habilitação em Biologia, Química e Física. Qualificar-se não me dá o direito de ter “nariz em pé”, até porque negro e excluído, qualificado ou não, continua enfrentando desafios sociais. Para fundamentar profissionalmente a qualificação que exerço, conquistamos também o curso técnico em Agente Comunitário de Saúde e de Endemias, onde hoje sou profissionalmente TACS. Toda essa história classifico como resistência para o empoderamento.

Blog Jivanildo Bina: Quais mulheres mais influenciaram sua vida e sua história?

Valdirene do Formoso: Claro, minha mãe, Ubaldina Silva dos Santos, cuja influência está no sangue e na forma de ser. Dela herdei o carisma de estar no movimento organizativo da classe trabalhadora. Ela foi mulher sindicalista e coordenadora pioneira do MMTR em nosso Inhambupe. Ela é meu anjo de luz, minha inspiração. Também cito Vanda Lúcia, ex-monitora da Escola Agrícola, de onde aprendi ensinamentos de liderança social e o carisma para optar pelo trabalho organizativo na formação de lideranças adolescentes e jovens cristãos.

Blog Jivanildo Bina: Em que momento você percebeu a força do seu papel como mulher na sociedade?

Valdirene do Formoso: A força do meu papel como mulher aconteceu quando fui convidada a transmitir temáticas para outras mulheres e também no processo de organizar a juventude da região. A confiança transmitida pelos familiares, ao disponibilizarem seus jovens e adolescentes para participar de seminários fora do estado sob minha responsabilidade, foi muito marcante. Também percebo essa força quando, em conferências representativas, sou indicada para representar a sociedade.

Blog Jivanildo Bina: Quais foram os maiores desafios que você enfrentou por ser mulher?

Valdirene do Formoso: Um dos maiores desafios foi enfrentar, em 2013, a universidade. Passei entre centenas de jovens, ficando em décimo oitavo lugar. Sem muita perspectiva de vida e em tratamento desde 2009 de um câncer de mama raro, deixar de sonhar era impossível. Fui muito ousada em cursar e finalizar a licenciatura, concluindo em tempo exato.

Blog Jivanildo Bina: Já sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação? Como lidou com isso?

Valdirene do Formoso: Sim. Somos um país capitalista, com uma população majoritariamente negra e pobre. O preconceito e a discriminação sempre foram marcas excludentes, basta lembrarmos do início da nossa história. Como muitas mulheres e muitas crianças na escola, ou pessoas que esperam por atendimento médico, muitas vezes somos educados a aceitar que quem é belo e tem poder seja valorizado, enquanto o ser humano em sua essência é desconhecido e, muitas vezes, rejeitado.

Blog Jivanildo Bina: O que te deu forças para não desistir diante das dificuldades?

Valdirene do Formoso: Sou uma pessoa de fé, e a espiritualidade fortalece nossas convicções. Com toda certeza, a clareza de acreditar no Deus da vida, que está presente entre os excluídos, nos dá força para vencer os obstáculos.

Blog Jivanildo Bina: Qual conquista pessoal ou profissional mais te orgulha?

Valdirene do Formoso: Me orgulho da pessoa que me tornei: de tímida a corajosa, alguém que não mede esforços para defender o que é certo e de direito.

Blog Jivanildo Bina: Que sonho você realizou e qual ainda deseja realizar?

Valdirene do Formoso: Realizei o sonho de conhecer a Europa. Foi magnífico poder testar meu potencial linguístico e minha relação com o diferente. Percebi que mesmo em países ricos existem excluídos e pessoas sofridas. Lembro de conhecer, com colegas, cidades da Alemanha, como Munique, andando pelas belas praças do centro e encontrando muitos jovens com suas artes, como estátuas vivas, ou em frente a restaurantes arrecadando dinheiro para o sustento familiar, outros para concluir a universidade. Ainda tenho o sonho de conhecer o restante dos estados do Nordeste. Já fui até o Rio Grande do Norte (risos), mas nossa região é linda e quero conhecer ainda mais.

Blog Jivanildo Bina: O que você acredita que ainda precisa mudar para que as mulheres tenham mais oportunidades?

Valdirene do Formoso: Precisa mudar a visão de que a mulher é frágil. Também é necessário mudar o modelo de políticas públicas e permitir que a mulher tenha acesso aos benefícios sem tanta burocracia. Além disso, é preciso colocar em prática ações de proteção à mulher, pois o feminicídio continua crescendo e mulheres, dia após dia, ainda tombam vítimas de violência, muitas vezes tratadas como propriedade de seus parceiros.

Blog Jivanildo Bina: Como você avalia o espaço que a mulher ocupa hoje na sociedade?

Valdirene do Formoso: Avalio o espaço da mulher como uma conquista, que se efetivou através da luta e até da morte de muitas mulheres ao longo da história. Não foram os homens que conquistaram a redução das jornadas de trabalho de 16 horas para as 8 horas atuais em muitas categorias profissionais. Foram as mulheres que protagonizaram essas lutas. Mesmo assim, a discriminação ainda é visível, seja no piso salarial ou nos cargos ocupados, muitas vezes diferentes dos dos homens.

Blog Jivanildo Bina: O que ainda precisa avançar em relação à igualdade de direitos?

Valdirene do Formoso: É preciso avançar nas oportunidades de trabalho, na quebra do preconceito racial e no respeito às leis que garantem os direitos das mulheres, que precisam ser colocadas em prática.

Blog Jivanildo Bina: Qual o papel da mulher na transformação social da sua comunidade?

Valdirene do Formoso: A mulher tem um papel fundamental na comunidade. Ela é mentora da evolução e do desenvolvimento educacional na família e no meio social. A história mostra que o voto feminino foi conquistado de forma muito limitada no início. Inicialmente, apenas mulheres casadas ou viúvas podiam votar. Muitas vezes, a mulher precisava da autorização do marido para exercer esse direito. Portanto, foi uma conquista importante, mas também marcada por limitações e pelo machismo da época. Hoje precisamos ter consciência de que nossos direitos só serão efetivados se ocuparmos os espaços sociais: na política, sim, mas também nos espaços comunitários, nos conselhos, nas conferências e em setores que determinam poder de decisão. Não adianta entrar na política se a base da sociedade não for educada para pensar e defender a igualdade de direitos para todos, respeitando o legado das mulheres.

Blog Jivanildo Bina: Que mensagem você deixaria para outras mulheres, especialmente as mais jovens?

Valdirene do Formoso: A mensagem neste momento para você, mulher, é que a vida é a joia mais preciosa que temos. Valorize a vida e valorize-se como pessoa e como mulher. Não desista diante dos obstáculos. Não desista mesmo quando a vida parecer por um fio. A fé é resistência à vida, e o empoderamento faz parte do processo de quebrar as correntes que um dia tentaram nos prender. Viva o 8 de março! Viva a luta da mulher! Viva a mulher inhambupense. Val Silva.

A entrevista reforça a importância da valorização da mulher e do reconhecimento de suas lutas, conquistas e contribuições para a sociedade. O Blog Jivanildo Bina segue celebrando histórias que inspiram e transformam neste mês de março.

Por: jivanildobina.com

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