Entrevista Especial – Mês da Mulher Blog Jivanildo Bina entrevista a enfermeira Simone Santos
Blog Jivanildo Bina: Quem é você e como define sua trajetória pessoal e profissional?
Enfermeira Simone Santos:
Meu nome é Simone Santos, sou mãe e enfermeira por amor. Sou filha de seu Luís Antônio, conhecido como Farofa, e a mais velha de quatro irmãos. Tenho muito orgulho da minha família, pois meu pai me criou sozinho até eu ter 12 anos. Tenho minha avó paterna como referência de mãe; fui criada com muito amor, carinho e proteção. Minha trajetória profissional foi difícil, porque a faculdade ficava em uma cidade vizinha, sendo necessário viajar cerca de 50 km todos os dias. Eu trabalhava o dia inteiro, era a provedora da minha casa, cuidava do lar e conciliava tudo isso com o fato de ser mulher, mãe e profissional. Não é uma tarefa fácil, mas é a prova da minha resiliência e da minha força interior.
Blog Jivanildo Bina: Quais mulheres mais influenciaram sua vida e sua história?
Enfermeira Simone Santos:
Minha avó paterna, Filomena Minervina dos Santos, conhecida como Filo. Quando eu era criança, nas nossas conversas, ela sempre dizia que a mulher precisava saber ler e escrever, estudar e ter uma profissão. Ela falava: “Minha filha, mulher precisa caminhar com as próprias pernas”. Ela é um grande exemplo para mim. Foi estudar com 65 anos, quando ainda existia o Mobral, e aprendeu a ler e escrever. Tinha muito orgulho disso.
Blog Jivanildo Bina: Em que momento você percebeu a força do seu papel como mulher na sociedade?
Enfermeira Simone Santos:
Quando fui mãe aos 17 anos. Nesse momento, descobri que meu papel como mãe era educar, orientar e preparar meu filho para a vida. Com o tempo, percebi que precisava ser a chefe da casa e a provedora, pois sou mãe solo. Foi aí que enxerguei a importância do meu papel na sociedade.
Blog Jivanildo Bina: Quais foram os maiores desafios que você enfrentou por ser mulher?
Enfermeira Simone Santos: Um dos maiores desafios da minha vida foi ser mãe solo. A maternidade não vem com manual, nem com alguém ensinando o caminho certo. É no dia a dia, entre erros e acertos, que a gente aprende. Conciliar a criação do filho com o trabalho, as responsabilidades e as cobranças da sociedade exige muita força emocional. Apesar das dificuldades, essa experiência me tornou uma mulher mais resiliente, determinada e consciente do meu papel na vida dos meu filho e na sociedade.
Blog Jivanildo Bina: Já sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação? Como lidou com isso?
Enfermeira Simone Santos:
Sim, vários exemplos. Ser mãe solo, ser uma mulher negra. A sociedade não está preparada para a mãe solteira negra. Muitas pessoas esperam que a mulher negra seja sempre submissa e diga “sim” para tudo. Fui criada por uma família muito forte, por isso tenho uma personalidade forte. A sociedade não aceita uma mulher negra que tenha voz e assuma seu papel.
Blog Jivanildo Bina: O que te deu forças para não desistir diante das dificuldades?
Enfermeira Simone Santos:
Minha força nasce da minha ancestralidade, da base sólida da minha família e da fé inabalável em Deus. A maternidade também é uma fonte diária de motivação, pois me ensina sobre responsabilidade, amor e resistência. Além disso, tenho plena consciência do meu valor enquanto mulher na sociedade. Ser uma mulher negra representa, ao mesmo tempo, luta e superação, mas também é símbolo de amor, integridade, coragem e transformação social. Cada desafio enfrentado reforçou em mim a certeza de que minha história pode inspirar outras pessoas a seguirem firmes, mesmo diante das adversidades.
Blog Jivanildo Bina: Qual conquista pessoal ou profissional mais te orgulha?
Enfermeira Simone Santos:
Ser enfermeira já é uma grande conquista. Mas ser enfermeira negra, de família humilde, é mais do que um diploma — é vitória, resistência e transformação. Cada plantão vencido, cada prova superada, cada dificuldade enfrentada carrega uma história que começou muito antes da faculdade. Começou na luta diária, na falta de oportunidades, no preconceito silencioso e nas portas que muitas vezes se fecharam. Mas eu não desisti. Enfrentei o cansaço, o medo e as dúvidas, e continuei, porque sabia que aquele diploma não era apenas meu — era da minha família, da minha comunidade e de todas as meninas negras que precisavam ver que é possível chegar lá. É romper ciclos de exclusão e ocupar um espaço de reconhecimento e cuidado na sociedade.
Blog Jivanildo Bina: Que sonho você realizou e qual ainda deseja realizar?
Enfermeira Simone Santos:
Já realizei vários sonhos que guardo comigo. Mas minha maior conquista não é apenas o diploma e ter quebrado ciclos. É ter mostrado que a pobreza não define destino e provado que a mulher negra não apenas resiste — ela lidera e transforma.
Blog Jivanildo Bina: O que você acredita que ainda precisa mudar para que as mulheres tenham mais oportunidades?
Enfermeira Simone Santos:
Ainda é fundamental avançar na criação e, principalmente, na efetivação de políticas públicas que garantam mais oportunidades, igualdade e respeito às mulheres. É preciso fortalecer ações voltadas para educação, saúde, geração de emprego e proteção social, além de combater todas as formas de discriminação e violência. Também é necessário ampliar a presença feminina nos espaços de decisão, garantindo que as mulheres sejam ouvidas e respeitadas. Somente com compromisso coletivo, responsabilidade do poder público e mudança de mentalidade da sociedade será possível construir um futuro mais justo, onde as mulheres tenham seus direitos assegurados e possam desenvolver todo o seu potencial.
Blog Jivanildo Bina: Como você avalia o espaço que a mulher ocupa hoje na sociedade?
Enfermeira Simone Santos:
As mulheres estão ocupando cada vez mais espaços de decisão em associações, igrejas, escolas e na política. Elas ajudam a construir políticas mais humanas e inclusivas. É um trabalho de formiguinha, mas que faz toda a diferença.
Blog Jivanildo Bina: O que ainda precisa avançar em relação à igualdade de direitos?
Enfermeira Simone Santos:
A igualdade não é privilégio, é um direito. Quando essa igualdade existe, a sociedade se torna mais justa e mais forte.
Blog Jivanildo Bina: Qual o papel da mulher na transformação social da sua comunidade?
Enfermeira Simone Santos:
A mulher atua como agente de mudança em várias áreas: na educação, na saúde, na liderança, na luta por direitos e na solidariedade. Ela combate desigualdades, promove igualdade e fortalece toda a sociedade.
Blog Jivanildo Bina: Que mensagem você deixaria para outras mulheres, especialmente as mais jovens?
Enfermeira Simone Santos:
Não tenham medo. E, se tiverem medo, vão com medo mesmo. Minha mensagem é que não deixem de sonhar e de acreditar em si mesmas. Se o medo aparecer, sigam em frente, porque ele faz parte do crescimento. Confiem na própria força, persistam diante das dificuldades e não permitam que ninguém limite seus sonhos. Cada passo dado com coragem fortalece e aproxima da realização dos objetivos.
Blog Jivanildo Bina: O que significa para você o Mês da Mulher?
Enfermeira Simone Santos:
Não é apenas um dia ou um mês para receber flores, mas um período para reconhecer a força, a coragem e a importância das mulheres na sociedade.
Blog Jivanildo Bina: Se pudesse definir a mulher em uma palavra, qual seria e por quê?
Enfermeira Simone Santos:
Resiliência
Porque, mesmo diante do racismo, das dificuldades financeiras, do machismo e das desigualdades, ela continua firme, se reconstrói, aprende, cresce e não desiste.
A entrevista reforça a importância da valorização da mulher e do reconhecimento de suas lutas, conquistas e contribuições para a sociedade. O blog jivanildobina.com segue celebrando histórias que inspiram e transformam neste mês de março.
Por: jivanildobina.com
Fotos: JB.C



